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Pé atrás e olhos bem abertos

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O susto com as últimas notícias sobre o aquecimento global, somado à escalada de preços do petróleo e à previsão de esgotamento do combustível, foi a gota que faltava: a questão ambiental e a corrida por fontes alternativas de energia entraram, definitivamente, na agenda política mundial. E essa onda verde cresce ainda mais diante da perspectiva de ganhos do ponto de vista geopolítico e econômico. Não é à toa a expectativa em torno da tão falada “Opep do etanol” e da parceria energética entre Brasil e Estados Unidos.

A visita do presidente George W. Bush foi o pontapé inicial de uma aliança estratégica, numa área em que o Brasil pode negociar, em condições privilegiadas, com a maior locomotiva da economia mundial. Juntos, os dois países respondem por 72% da produção mundial de etanol. Mas, além de termos uma área de fronteira agrícola muito maior, nossa cana-de-açúcar dá um banho no milho americano quando se trata de produtividade: pode gerar 7.300 litros de álcool por hectare, enquanto o milho não produz mais que 3 mil litros. Isso sem falar que o etanol da cana é quatro vezes mais barato que o do milho. Motivos de sobra para explicar o interesse cada vez maior de investidores estrangeiros por usinas no Brasil.

Mais do que o aumento da produção de álcool para abastecer o mercado internacional, no entanto, a grande expectativa ¿ e a grande aposta dos dois governos ¿ é a exportação de tecnologia brasileira na área de biocombustíveis.
Afinal, antes de se tornar um grande fornecedor internacional de biocombustíveis, o Brasil precisa enfrentar uma série de desafios, entre eles a manutenção de estoques reguladores de álcool durante a entressafra, a garantia de abastecimento do mercado doméstico e a definição de uma política oficial para o setor. Na área ambiental, o temor é a expansão desordenada das lavouras de cana, que poderiam disputar espaço com o cultivo de outros produtos e invadir áreas de reserva legal, agravando o problema das queimadas.

Uma parceria com os Estados Unidos para liderar a venda de tecnologia e o investimento para produção de etanol em outros países da América Central, Caribe e África pode ser mesmo bastante vantajosa para o Brasil. Mas, nessa diplomacia movida a álcool, são no mínimo duvidosas as intenções do presidente Bush, ao deixar de lado as inúmeras divergências comerciais que turvam as relações entre os dois países.

A eliminação ou redução dos subsídios agrícolas que destoam da cartilha norte-americana de livre comércio e que tolhem a entrada dos produtos brasileiros nos EUA continuam fora da pauta. O fim das sobretaxas impostas contra as exportações de etanol para o mercado norte-americano também é assunto proibido na agenda de Bush. Eles querem mais empresas atuando no Brasil, sobretudo na área de serviços. Mas fecham os olhos quando se trata de qualquer concessão para os agronegócios brasileiros em seu território. Não aceitam discutir a quebra de patentes para medicamentos contra a Aids, nem propõem qualquer vantagem em troca de uma maior aproximação política e comercial com o Brasil. Convém lembrar que a balança comercial entre os dois países está paralisada há uma década.

É claro, no entanto, que não se deve desprezar a hipótese de uma parceria para a formação de um mercado mundial de biocombustíveis. Nem esquecer a promessa norte-americana de reduzir o consumo interno de gasolina em 20% nos próximos dez anos. Mesmo com as sobretaxas sobre nosso etanol, exportamos 1,8 bilhão de litros para os EUA em 2006.

É o caso de pagar para ver. Mas com um pé atrás e os dois olhos bem abertos.
 

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