O país dá adeus ao diretor Nelson Pereira dos Santos

Com a morte, no sábado 21 de abril, do diretor Nelson Pereira dos Santos, no Rio de Janeiro, aos 89 anos de idade, o cinema brasileiro se veste de luto pela perda de um de seus maiores criadores. O país dá adeus a um cineasta pioneiro, reconhecido e celebrado em todo o mundo; e o meu Estado de Alagoas perde um grande amigo.
Nelson gostava de Alagoas, tinha fortes ligações afetivas com a nossa terra. Como se verá ao longo desta breve narrativa, Alagoas esteve presente na sua vida em vários momentos e de diversas formas, até mesmo em curiosas coincidências.
Nelson era cidadão honorário de Maceió, e recebeu o título com muito gosto. Visitava a cidade sempre que podia. E desde o início dos anos 1960 se inspirou nas coisas e nos tipos humanos alagoanos para realizar algumas das obras mais importantes de sua filmografia.
Era bacharel formado em 1952 pela Faculdade de Direito da USP. Mas logo cedo deu-se conta de que seu destino não era a banca de advocacia. Preferiu enveredar pela senda da arte, atraído pela magia da tela grande e disposto a enfrentar as dificuldades de fazer cinema no Brasil. Atuou também como jornalista, primeiro em sua terra natal, São Paulo, depois no Rio de Janeiro.
Nelson tinha uma maneira simples e sábia de definir o tipo de cinema que o atraía. Dizia que um bom filme é uma história bem contada. Sua obra é feita de histórias bem contadas, que o espectador assiste, entende e guarda na memória, porque provocam reflexão. Foi um cineasta à frente de seu tempo, mas nunca se aventurou no vanguardismo hermético. O filme “Fome de Amor”, de 1968, foi sua única obra experimental.
Nelson Pereira dos Santos foi precursor e inspirador do chamado Cinema Novo brasileiro. Estreou como diretor de longa-metragens em 1955, aos 27 anos, com um filme que logo se tornou clássico, “Rio 40 graus”, verdadeiro divisor de águas no cinema brasileiro. A obra levou para as telas, pela primeira vez, as favelas cariocas, seus dramas sociais e figuras humanas. E projetou para a música popular o compositor e cantor Zé Kéti, autor do samba “O morro não tem vez”, regravado em dezenas de discos por cantores e cantoras.
Para se ter uma ideia do pioneirismo de Nelson Pereira dos Santos, “Rio 40 graus” foi realizado quatro anos antes de outro filme que se tornaria referência, “Orfeu Negro”, produção franco-brasileira rodada também nas favelas do Rio, em 1959, falado em português, dirigido pelo francês Marcel Camús e vencedor do Oscar de melhor filme estrangeiro em 1960.
Nelson foi buscar na literatura inspiração para alguns de seus maiores filmes. Rodou duas obras imortais de Jorge Amado, “Jubiabá” e “Tenda dos Milagres”. Adaptou para o cinema o clássico “O Alienista”, de Machado de Assis, no filme “Azylo Muito Louco”, de 1970. Levou para as telas “A terceira margem do rio”, de Guimarães Rosa; e “Boca de Ouro”, de Nelson Rodrigues, além de documentários sobre Gilberto Freyre e Castro Alves, e as cinebiografias de Sérgio Buarque de Holanda e do maestro Antônio Carlos Jobim.
Mas foi nas Alagoas que Nelson sentou acampamento, na capital e no sertão, para realizar seus melhores trabalhos, como ele próprio confessava. E na obra do nosso grande Graciliano Ramos ele encontrou o fio de ligação do Nordeste com o mundo. Graciliano retratou a aldeia e se tornou universal. Nelson percebeu que a literatura de Graciliano, seca e rude, podia e devia ser levada às telas. E foi o que fez, há 55 anos atrás.
“Vidas Secas”, de 1963, é sua obra-prima, filme premiado e consagrado no Brasil e no exterior, que colocou merecidamente Nelson Pereira dos Santos na galeria dos grandes diretores do cinema. Foi rodado com locações nos municípios alagoanos de Palmeira dos Índios e Minador do Negrão. Palmeira dos Índios, como todos sabem, é a cidade da qual Graciliano foi prefeito no final dos anos 20 e início dos anos 30 do século passado. “Vidas Secas” é um filme de diálogos curtos e secos, fiel ao estilo de Graciliano; mas cheio de emoção contida, como só os grandes mestres do cinema sabem fazer.
A direção de fotografia, a cargo do então jovem fotógrafo Luiz Carlos Barreto – o Barretão, até hoje atuante produtor de filmes, e bom de briga em defesa do cinema nacional, junto com a sua Lucy –, colocou nas telas um preto-e-branco com luz natural despida de artifícios técnicos, o que dá ao filme o tom de realismo pretendido pelo diretor.
Conta a lenda que, para realizar “Vidas Secas”, Nelson nem precisou escrever um roteiro; filmava direto do livro. Ele mesmo recordou, em diversas entrevistas, que ao ler o romance, viu que tinha em mãos um filme já pronto. A sequência da morte da cadela Baleia, que dura seis minutos, entrou para a história da arte cinematográfica e merece estar em qualquer antologia das grandes cenas do cinema mundial, pela sensibilidade com que foi filmada e editada.
Durante os seis minutos praticamente não há diálogo. Só os assobios de Fabiano para atrair Baleia e matá-la; o choro contido dos dois filhos na penumbra da choupana, com pena da cadela amiga condenada à morte; a mulher, Sinhá Vitória, triste e resignada tapando os ouvidos das crianças; a cadela desconfiada, se esgueirando pela cerca, pressentindo o perigo no olhar do dono e sem entender o porquê; a hesitação de Fabiano perseguindo Baleia passo a passo, apontando a espingarda e desistindo, apontando e desistindo – até dar o tiro; os ganidos do animal ferido de morte, o olhar da pobre Baleia para as preás que ela não poderá mais caçar; a agonia final, quieta atrás duma moita de espinhos até fechar os olhos; e o silêncio pesado que vem depois.
A direção magistral de Nelson em todo o filme, mas sobretudo nesses seis minutos inesquecíveis, tem uma carga dramática tão intensa que provoca no espectador uma comoção semelhante àquele impacto dolorido e profundo que Steven Spielberg causaria ao mundo 30 anos mais tarde, com uma sequência de outro clássico em preto-e-branco, “A Lista de Schindler”. Não há quem não sinta o coração apertado ao ver as cenas da menininha do casaco vermelho no filme de Spielberg.
A morte da cadela em “Vidas Secas”, filmada com tanta genialidade e realismo, acabou sendo motivo de um episódio famoso e inédito.
O filme de Nelson havia sido selecionado para concorrer no Festival de Cannes em 1964, representando o Brasil. Acontece que uma italiana, presidente da Sociedade de Proteção aos Animais, havia assistido à pré-estreia do filme e ficou indignada com a cena da morte da Baleia. Ela protestou vigorosamente contra a crueldade de sacrificar um cão para fazer o filme brasileiro e exigia a retirada de “Vidas Secas” da lista de exibição. Ela não acreditava que a cena fosse ficção bem filmada.
Para encerrar a polêmica foi preciso que a própria cadela fosse levada a Cannes para convencer a organização do festival, e a protetora dos animais, de que Baleia estava viva e saudável. A Air France patrocinou as passagens. A cadela vira-lata alagoana, agora estrela de cinema, desceu do avião em Paris diante de um batalhão de fotógrafos e cinegrafistas. E, como estava com a bexiga cheia, a primeira coisa que fez ao pisar em solo francês, foi posar para a posteridade fazendo o que precisava ser feito.
Outro fato marcante sobre a ligação de Nelson com Alagoas é o fato de que nas filmagens de “Vidas Secas” ele descobriu, no interior de Alagoas, um ex-marinheiro anônimo que mais tarde se tornaria um astro do cinema e da televisão.
Quando chegou em Palmeira dos Índios em 1963 para os preparativos das filmagens, Nelson procurou nas comunidades locais pessoas que poderiam fazer parte do elenco como figurantes. Pergunta daqui, pergunta dali, e informaram que havia um marinheiro aposentado que gostava de brincar de artista. Depois de dar baixa da Marinha, com 45 anos de idade, o tal homem havia retornado à sua terra natal, e para encontrar ocupação, criou em Palmeira dois grupos de teatro amador, um no Colégio São Luiz, com os padres, e outro com índios da tribo xucuru-kariri.
Nelson procurou o homem, os dois se conheceram e se entenderam, o ex-marinheiro dava sugestões, apresentava pessoas e mostrou que podia até atuar se fosse bem dirigido. O fato é que Nelson criou para ele um personagem que tinha até umas poucas falas. O homem se chamava Jofre Soares e interpretou em “Vidas Secas” o Fazendeiro, seu primeiro papel no cinema.
Foi Jofre Soares que mostrou para Nelson Pereira os dois meninos que fazem o papel dos filhos de Fabiano e Sinhá Vitória. Os dois ainda estão vivos e continuam morando em Palmeira dos Índios.
Jofre Soares se tornou tão amigo de Nelson que quando acabaram as filmagens de “Vidas Secas”, largou tudo em Palmeira, foi para o Rio com a equipe e lá, apresentado e recomendado pelo diretor, iniciou a carreira de ator consagrado em filmes, novelas de televisão, seriados e peças de teatro.
Quando Jofre Soares morreu, em 1996, em São Paulo, onde morava, Nelson Pereira telefonou de lá para amigos em Maceió, pedindo que alguém fosse representar o Governo do Estado no enterro do grande artista. Não foi possível. O governo de Alagoas enviou ao diretor uma quantia modesta para que Nelson encomendasse uma coroa de flores, o que foi feito. Jofre Soares foi velado no teatro que hoje leva seu nome, na Bela Vista, região central de São Paulo, com a coroa de flores que Nelson Pereira dos Santos comprou em nome do Governo de Alagoas. Atualmente, em Maceió, também temos o nosso Teatro Jofre Soares, do Sesc, no centro da cidade. Depois de “Vidas Secas”, Nelson Pereira dos Santos seguiu filmando outras obras, entre as quais se destacam “Fome de Amor”, em 1968, e “Como era gostoso o meu francês”, de 1970.
Em 1974, Alagoas entra outra vez pela porta da frente na vida do cineasta. Nelson dirigiu naquele ano um filme denso, “O amuleto de Ogum”. O personagem principal do filme é um garoto de Palmeira dos Índios, Gabriel, cujo pai foi assassinado. O menino tem o corpo fechado num ritual de umbanda. Depois, adolescente – e interpretado pelo ator Ney Santana, filho de Nelson –, o rapaz emigra para a Baixada Fluminense, no Estado do Rio, e ali se torna pistoleiro de um chefe político também nascido em Palmeira dos Índios, interpretado magistralmente por Jofre Soares.
O filme é claramente inspirado na turbulenta história do famoso e temido Natalício Tenório Cavalcanti, que na década de 1920 saiu de Palmeira dos Índios, radicou-se na cidade de Duque de Caxias, elegeu-se deputado estadual e federal sucessivas vezes e, nos anos 40, 50 e 60 se tornou o maior e mais controverso chefe político da Baixada, na época a região mais violenta do Rio de Janeiro.
E aí também a história registra detalhes curiosos. No filme, por obra da direção genial de Nelson, os dois atores, Ney Santana e Jofre Soares, vivem o papel de um mesmo personagem – Ney interpreta Gabriel, que seria o Tenório Cavalcanti jovem; e Jofre encarna o Homem da Capa Preta na velhice. E o jovem tem um caso amoroso com a amante do patrão, interpretada por Anecy Rocha, irmã de Glauber Rocha, o cineasta baiano.
Mas como seria que o Tenório Cavalcanti da vida real – que na época do filme ainda era vivo, poderoso e valente – como ele reagiria ao se ver retratado no filme daquela forma? Como um jovem pistoleiro sanguinário e como um velho chefe político traído pela mulher?
Pois Tenório, para grande surpresa do próprio Nelson, ficou todo feliz ao se ver personagem de filme, e achou aquilo tudo muito divertido. Emprestou sua casa-fortaleza, um verdadeiro bunker em pleno centro de Duque de Caxias, para servir de locação nas filmagens urbanas; o sítio nos arredores da cidade para as cenas em que os pistoleiros treinavam tiro; e emprestou até seu luxuoso automóvel Galaxie branco novo, que aparece em algumas cenas transportando Jofre Soares.
“O amuleto de Ogum” foi talvez a mais bela contribuição de Nelson para um cinema brasileiro e popular. De quebra, nesse filme o diretor levou para a tela grande um cantor, músico e compositor que nunca havia atuado e se revelou excelente ator: Jards Macalé, que interpreta muito bem um mendigo cego, personagem-chave no enredo do filme.
Outra coincidência em que a vida de Nelson Pereira dos Santos se mistura com Alagoas é o fato de que seu filho Ney Santana começou a carreira de ator também em Alagoas, sob a direção de um alagoano, um ano antes de atuar no “Amuleto de Ogum” com o pai. Foi em 1973, quando Ney Santana foi um dos atores no grande elenco do filme “Joana, a Francesa”, dirigido pelo alagoano Cacá Diégues e ambientado em fazendas de cana de Alagoas.
Dez anos depois, em 1984, já calejado nas coisas de Alagoas e ainda mais identificado com Graciliano, Nelson Pereira dos Santos se dedica a filmar o período mais duro da vida do escritor alagoano – as “Memórias do Cárcere”.
O filme é sobre, como todos sabem, a prisão de Graciliano pela ditadura do Estado Novo, documentada pelo próprio autor no livro-testemunho póstumo que ficou sem o último capítulo porque em 1953 o escritor morreu antes de concluí-lo.
A saga narra as várias cadeias, inclusive na Ilha Grande, por onde passou o prisioneiro Graciliano, acusado pela polícia política de Felinto Müller de ser comunista, quando ainda não tinha entrado para o partido Comunista Brasileiro.
Permita-me um parênteses para lembrar a coincidência do que aconteceu a Graciliano no Estado Novo com o que acontece ao Presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que, nesses tempos de arbítrio desse consórcio Ministério Público, setor do Judiciário e grande parte da imprensa, condena o Lula sem prova e insiste no seu julgamento, num típico juizado de exceção. O recurso tramita celeremente, celeremente, no Tribunal Regional Federal da 4ª Região, antecipa-se a pena para torná-lo inelegível, numa eleição em que, como as outras, ele aparentemente não tem com quem concorrer, porque conta com a ampla maioria do povo brasileiro.
Eu tenho muita expectativa, Senador Hélio José, continuando com esse parêntese aberto, de que, nos próximos dias, nós vamos ter muitas notícias sobre o que está acontecendo com o Presidente Lula e sobre o que está acontecendo e não pode continuar a acontecer com o nosso País.
A decisão da Segunda Turma do Supremo Tribunal Federal foi muito importante. Mas hoje eu vejo, nos jornais, o Procurador Deltan Dallagnol dizendo que foi uma decisão irresponsável. Irresponsável é prender para delatar; ameaçar o preso a emendar a sua prisão provisória com a condenação definitiva. Irresponsável é antecipar a prisão, quando o próprio entendimento anterior do Supremo Tribunal Federal diz que pode, mas que não é obrigatório fazê-lo. Torná-la obrigatória é irresponsável! Irresponsável é forjar flagrante; pautar a gravação de pessoas, até de doentes nos hospitais. Irresponsável é gravar uma criança com seis anos de idade, reclamando de uma conversa que acontecia num dia de sábado, logo pela manhã. Irresponsável é ser contra a lei; invadir o exercício de um mandato; desqualificar um Poder; fazer busca e apreensão.
Ontem, fizeram a segunda busca e apreensão na residência e no gabinete do Senador Ciro Nogueira. Todos nós conhecemos o Senador Ciro Nogueira. O Ciro é um conciliador, um homem cordato, para além do que deve ser feito na investigação. Eu sempre defendi investigação e acho – administro desta forma – que a investigação é uma oportunidade que se tem para que a gente possa demonstrar o contrário.
Todos sabem que, no ano que passou, juízes de primeira instância fizeram um “abraçaço” no Supremo Tribunal Federal, invadiram as galerias, para que o Supremo Tribunal Federal recebesse uma denúncia contra mim do Ministério Público de 2007. Pois bem, eu disse naquela oportunidade o que eu digo agora: eu vou acelerar os procedimentos e quero, desde logo, pedir ao Ministro Fachin que ponha em julgamento essa denúncia. Se há alguém que quer ver esse fato esclarecido, essa pessoa é o Senador Renan Calheiros.
Mas o que acontece, pela segunda vez, com o Ciro Nogueira e com outros, Sr. Presidente, é inadmissível do ponto de vista da democracia. Se o Senador estivesse se recusando a colaborar com as investigações, com o esclarecimento dos fatos, tudo se justificaria. Mas com o Senador colaborando, colocando-se à disposição, abrindo todas as suas informações, entregando todos os seus sigilos, Sr. Presidente, dessa forma, nós sinceramente não sabemos aonde vamos chegar.
Por isso, a tentativa de desqualificação do Supremo Tribunal Federal, que, na democracia – não tem jeito –, é o garantidor da Constituição. A Constituição está viva. A Constituição não morreu, não morreu. É um engano, um equívoco querer demonstrar ao País que a Constituição morreu. Se a Constituição morreu, como consequência morrerá também a democracia. E este País, que já teve tristes experiências no passado, não pode pagar preço nenhum, não pode correr o risco de que isso novamente venha a acontecer.
Voltando ao filme, Graciliano é interpretado por Carlos Vereza, e sua esposa, Helena, por Glória Pires. O elenco reunido por Nelson Pereira dos Santos é de primeira qualidade, e há episódios marcantes, presenciados por Graciliano na prisão e retratados com fidelidade no filme, como a entrega de Olga Benário, mulher de Luiz Carlos Prestes, à Gestapo nazista para ser executada na Alemanha.
Nas filmagens de “Memórias do Cárcere” em Maceió, repetiu-se o que havia acontecido em “Vidas Secas”. Nelson incluiu no elenco atores alagoanos, como Chico de Assis, e atrizes como Anilda Leão. Depois do filme pronto, na volta para o Rio levou Chico de Assis, abrindo-lhe oportunidades de trabalho, inclusive em novelas e séries da TV Globo.
A filmografia de Nelson Pereira dos Santos é extensa e rica, profundamente brasileira, humana, e sempre com o olhar solidário e o clamor por justiça para os despossuídos, oprimidos e perseguido, como Graciliano e como Luiz Inácio da Silva.

Nelson Pereira dos Santos foi o primeiro cineasta a assumir uma cadeira, a de número 7, na Academia Brasileira de Letras. Foi indicado em 2006 para a vaga pelo valor e importância de sua filmografia, e não por obra literária. Também não precisou fazer campanha. Apenas consultou uns poucos acadêmicos com quem tinha amizade mais próxima, não para cabalar votos, mas para conferir qual seria a contribuição que poderia dar à Academia se aceitasse ser um de seus membros. Não precisava nem ambicionava a honraria; queria ser útil.
Ele de fato foi útil, no Brasil e lá fora. Foi professor-fundador do primeiro curso superior de cinema do Brasil, na Universidade de Brasília, no tempo de Darcy Ribeiro. Também lecionou na Universidade da Califórnia, em Los Angeles, e na Universidade Colúmbia, em Nova York. Dava palestras em toda parte, quase sempre de graça; aceitava com prazer os convites para conferências e debates; gostava de conversar com as pessoas; era um curioso do mundo e das coisas.
A última vez em que o grande cineasta esteve em Alagoas foi em 2013, para receber a Medalha do Mérito Deodoro da Fonseca, a maior condecoração concedida pelo Governo do Estado.
No ano passado, foi convidado pelo governador Renan Filho para participar como palestrante nos eventos em comemoração aos 200 anos da Emancipação Política de Alagoas. Ficou triste por não poder viajar, com a saúde já debilitada, e pediu que o filho Ney Santana o representasse.
Nelson Pereira dos Santos sempre lutou em defesa do cinema nacional. Não se conformava com as crônicas dificuldades de financiamento para o filme brasileiro; rebelava-se contra o preconceito de empresários e distribuidores, que sistematicamente deixam de lado excelentes filmes nacionais e pagam royalties bilionários para trazer produções estrangeiras de alto custo e baixa qualidade artística.
Mas não perdia o bom-humor. Batalhava com a voz serena e um sorriso nos lábios.
Uma vez, para resumir a indigência a que é condenada a produção nacional, Nelson saiu-se com a seguinte comparação:
– No cinema de Hollywood e no europeu, quando acaba o filme sobem os créditos. No cinema brasileiro sobem os débitos.
Infelizmente é verdade, Mestre Nelson.
Na trajetória profissional e na vida cidadã, Nelson Pereira dos Santos abraçou as boas causas, estava do lado certo. Nas centenas de artigos e ensaios que escreveu ao longo dos anos, nos manifestos que assinou, nas conferências e debates de que participou, sempre foi uma referência, um exemplo a ser seguido.
Daqui do Senado Federal, vai a homenagem de Alagoas a esse grande artista brasileiro, uma figura humana que deixa saudades e fará muita falta ao país; um dos definidores da identidade e da alma brasileira, cujo legado, felizmente, estará ao alcance das gerações que virão. Nossa solidariedade à esposa Ivelise, aos filhos Nelson, Ney, Márcia e Diogo, e aos seus netos.
Encerro tomando emprestadas as palavras deste outro grande cineasta brasileiro, amigo querido de Nelson e alagoano de Maceió, Cacá Diégues:
– O Nelson era tudo. Inventou um cinema que só poderia ser feito no Brasil. É uma perda irreparável. Ele morreu, mas a obra está aí, e deve ser vista.
Reforçando essas colocações do Cacá Diegues, eu queria pedir a todos que a maior homenagem que nós podemos prestar – e digo isso daqui, da tribuna do Senado Federal – a Nelson Pereira dos Santos, é como recomendou Cacá Diegues, ver as suas obras.
Muito obrigado.

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